Tiradentes e a Independência do Brasil

TIRADENTES E A INDEPENDÊNCIA DO BRASIL.

 (Conto comemorativo para o dia 21 de abril)

          A madrugada do dia 21 de abril de 1792 fora exatamente igual às tantas madrugadas que a antecederam. O Rio de Janeiro estava ensolarado, suas belezas naturais resplandeciam ao sol que nascia. Entretanto, alguns acontecimentos daquela manhã não faziam parte do cotidiano da cidade. Pelo menos quatro acontecimentos distintos quebravam a normalidade.

           O primeiro era o silêncio do povo nas ruas e calçadas vendo a passagem da carroça dos condenados que desta vez levava um ilustre conhecido para a forca. Seu nome era Joaquim José da Silva Xavier, conhecido com Tiradentes, acusado pela corte portuguesa de fazer uma sublevação com a finalidade de separar o Brasil de Portugal.

          O patíbulo fora armado no Largo da Lampadosa, que o povo chamava de Praça dos Enforcados, onde havia uma multidão e em um espaço aberto, perto da forca, estavam quatro cavalos fortes e bravos, seguros por soldados e presos a quatro correntes, cada uma delas em uma direção, formando uma espécie de cruz.

          Joaquim José da Silva Xavier havia sido condenado à forca e ao esquartejamento após a sua morte. Esta era a razão da presença dos cavalos na Praça dos Enforcados. O silêncio do povo era total, mas ouvia-se o som das patas dos cavalos atrelados à carroça dos condenados, fazendo um conjunto sonoro com os aros de ferro das quatro rodas que marcavam a sua passagem batendo nos paralelepípedos, produzindo um barulho seco, rítmico, monótono e fúnebre.

             O segundo acontecimento, que não podia ser notado, era a presença de alguns brasileiros espalhados entre a multidão que se aglomerava ao redor dos soldados portugueses que, formando um cordão compacto, isolavam o patíbulo e os cavalos para o esquartejamento. Os brasileiros, usando armas de fogo e facas colocadas discretamente sob as camisas, estavam em pontos estratégicos, perto dos sargentos e oficiais da guarda.

            O terceiro fato, ainda mais discreto que o anterior ocorria na Pousada dos Estrangeiros, que ficava na frente da Praça dos Enforcados. No quarto número 19 estavam dois homens, um deles um inglês, o tenente Stanley, que trabalhava para o Serviço Secreto do Rei da Inglaterra. Era um oficial da marinha, à paisana e observava o movimento na Praça dos Enforcados com curiosidade e muita atenção. No chão, perto da janela havia três fuzis de precisão, carregados. Ao seu lado, na janela, também observando, estava um brasileiro, ainda jovem e perto dele havia uma bolsa de pólvora e munição para os fuzis.

            O quarto fato dava-se na baía de Guanabara onde um navio inglês o Constellation estava ancorado.  Era o maior navio de guerra do mundo. Em cada lateral viam-se pequenas janelas fechadas que escondiam canhões de 8 e 10  polegadas. Em cada costado do Constellation havia duas fileiras de janelas, uma embaixo e outra em cima, cada uma com vinte e cinco canhões, dando um total, nos dois costados, de cem canhões pesados. O Constellation era um navio gigantesco e magnifico e as pessoas no porto e nos outros navios ancorados o observavam com admiração. O navio inglês tivera a licença para entrar no porto e ancorara a alguma distância do cais, onde não poderia atracar devido ao seu tamanho.

           No cais, amarrados, estavam os navios de guerra portugueses e seus oficiais muitas vezes observavam a belonave inglesa com suas lunetas, mas nada viam, a não ser o movimento normal de alguns marinheiros no convés. O que não podiam ver é que nenhum marinheiro tivera licença para ir a terra, que os oficiais estavam em seus postos de guerra, e que atrás de cada um dos cem canhões estavam os artilheiros, abarrotados de munições, prontos para disparar à primeira ordem.

           O Constellation estava em procedimento de combate e os alvos eram as galeras dos portugueses e o forte no começo da cidade. O comandante Sir Harlley Moss, estava reunido na sala de comando com os seus oficiais e discutiam debruçados sobre o mapa da Baía de Guanabara. A capacidade bélica do navio era suficiente para destruir uma cidade. Todos, exceto os marinheiros que circulavam no convés para dar impressão de normalidade, estavam em seus postos de combate.

          Às sete horas e treze minutos a carroça dos condenados chegou à Praça dos Enforcados. Dois guardas ajudaram Tiradentes a descer da carroça, pois suas mãos estavam amarradas.

          Muitos não o reconheceram. Usava o camisolão branco dos condenados, sua espessa barba negra havia sido raspada e a vasta cabeleira fora cortada, conforme os ditames da lei da execução dos condenados. Homens ou mulheres tinham os cabelos raspados quando iam para a forca ou para a decapitação.  Tiradentes estava magro, sem barba e a cabeça completamente raspada. Contudo, os que o viram de perto confirmaram a sua altivez e a dureza de seus olhos negros.  Havia algo naquele homem, uma dignidade indefinível, uma nobreza inata.

           Um oficial português deu uma ordem, o padre confessor colocou-se à frente do condenado, quatro soldados tomaram posição ao seu lado, o oficial postou-se atrás e o cortejo andou lentamente para o patíbulo onde um carrasco, um homem enorme, com a cabeça coberta por um capuz, vestindo um colete negro, sem mangas, mantinha-se perto da alavanca que abria o alçapão.

           O carrasco, embora com a cabeça escondida sob o capuz era conhecido de todos. Português, alcoólatra, sádico e imenso, era conhecido como Tinhão e todos os brasileiros lhe devotavam um ódio mortal. Era um sádico idiopático que gostava do sofrimento alheio.

           Às 7 horas e vinte e dois minutos Tiradentes e seu séquito subiram a escada do patíbulo. O carrasco saiu de perto da alavanca do alçapão e pegou a corda cujo nó já estava pronto. O padre, com a Bíblia aberta em suas mãos rezava em um murmúrio. O povo aglomerou-se atrás dos soldados que se uniram mais ainda para reforçar o cordão de isolamento. Os quatro cavalos de esquartejamento moviam-se inquietos e os homens que os seguravam eram às vezes arrastados por eles por um ou dois metros. Fora isto, o silêncio era mortal. Nem mesmo os passarinhos piavam. Algo como se o prenúncio da morte impusesse a quietude sepulcral.

         Às sete horas e vinte e nove minutos o oficial de justiça da corte portuguesa subiu ao cadafalso e leu a ordem de execução de Tiradentes.  Quando terminou, enrolou o papel timbrado, guardou-o em uma bolsa surrada de couro e olhou para o oficial que estava perto do condenado. O oficial olhou para o carrasco e disse:

         -Cumpra-se a ordem de execução da Justiça da Coroa!

         Às sete horas e trinta e quatro minutos o carrasco pôs a mão sobra a cabeça de Tiradentes obrigando-o a curvar-se e com a outra mão pegou o laço aproximando-o do pescoço do condenado.

          O tenente Stanley, da janela da pousada, cuidadosamente apontou o fuzil para o cadafalso mirando a cabeça do Tinhão, o carrasco. Ele seria o primeiro a morrer, pois naquele momento representava o poder de Portugal. Com cuidado, sem pressa apertou o gatilho e no mesmo instante que o tiro saiu a cabeça do carrasco praticamente explodiu sob o capuz e ele foi jogado do patíbulo para o chão com o sangue fazendo uma enorme mancha no pano.

           Tiradentes olhou para cima, viu de onde viera o tiro e rapidamente atirou-se na plataforma de madeira, longe do alçapão. O tenente português tirou a pistola da cinta e apontou para a cabeça de Tiradentes. Outro tiro vindo da janela o matou imediatamente. Os soldados, sentindo-se expostos, pularam para o chão, juntamente com o oficial da justiça O padre, um brasileiro, tirou uma faca da batina e com dois cortes livrou o condenado das amarras. Tiradentes levantou-se, o padre deu-lhe a espada do oficial português, ele ergueu os braços e gritou:

         -Liberdade para O Brasil! Lutemos por nossa pátria!

        Imediatamente em resposta, partiu uma fuzilaria de dentro da multidão. Os sargentos e oficiais portugueses foram liquidados em segundos. Os soldados, sem comando ficaram confusos e foram liquidados.  Em minutos os rebeldes que estavam na multidão, apoiados pelos brasileiros, tomaram a Praça dos Condenados. Se alguns soldados ainda resistiam, tiros certeiros vindos da janela da pousada os liquidavam. Tiradentes, ainda no cadafalso gritou:

        -Brasileiros, vamos tomar o forte português! Sigam-me!

         Urrando de fúria e raiva os brasileiros puseram-se atrás de Tiradentes e correram para o forte. Seria uma empreitada perigosa. Soldados portugueses, o ouvindo o barulho vindo da Praça dos Enforcados postaram-se nas torres dos muros do forte e tomaram posição de combate. A multidão, embora houvesse entre ela alguns homens armados, não era páreo para soldados entrincheirados e disciplinados. Mas Tiradentes sabia o que estava fazendo. Quando chegaram perto do forte ele deu ordem para que todos parassem e se protegessem atrás de muros e paredes.

         O comandante do Constellation, Sir Harlley observando a cidade com a luneta observou:

       -A multidão parou perto do forte!- em seguida ordenou – Atenção canhões! Preparar! Fogo!”.

        De um dos costados do navio vinte e cinco bocas de canhões de dez polegadas atiraram contra o forte e outras vinte e cinco abriram fogo contra as galeras de guerra portuguesas que já se preparavam para atirar contra a multidão. Em ambos os casos os efeitos foram devastadores. Pedaços de muro, pedras, soldados, canhões, fuzis voaram em todas as direções. Parte do muro principal do forte ruiu e por ali os brasileiros entraram correndo em uma gritaria indescritível. Muitos morreram, mas em minutos o forte estava tomado enquanto que no porto as galeras de guerra portuguesas, semi afundadas queimavam lentamente. Aos poucos, bandeiras brancas de rendição apareciam nas ruas, nas praças, nas casas e no porto. Portugueses estavam se entregando.

        -Prendam os que estiverem se entregando! Devem ser bem tratados, pois são prisioneiros de guerra! Esta será uma nação civilizada e o primeiro passo é o de não cometer um massacre sanguinário! – ordenou Tiradentes, que agora envergava um uniforme militar de combate, aos seus comandados oficiais brasileiros. – Contenham a multidão e desarmem-na! Este país deve nascer de modo correto e nós daremos os primeiros passos neste sentido desde já!

         Em algumas horas os portugueses foram dominados, a polícia foi desarmada e o exército português ficou preso no forte. Tiradentes e os seus auxiliares da revolta rapidamente tomaram conta da situação e estabeleceram um governo provisório que imediatamente entrou em ação.

          O Brasil foi declarado república, Tiradentes ficou como presidente provisório e o seu primeiro decreto foi o de marcar eleições livres para o dia 30 de outubro daquele mesmo ano. O segundo decreto foi o da abolição da escravatura e o terceiro decreto foi o de criar escolas básicas de grande qualidade para todas as crianças brasileiras. Tiradentes despachou estafetas a cavalo para todas as capitanias relatando a vitória, ordenando que seus governos se submetessem ao governo da República do Brasil e cumprissem imediatamente os decretos editados. Quem não obedecesse seria preso imediatamente e julgado pelo governo provisório.

          -Você está no caminho certo para o progresso, Alferes Tiradentes.- comentou o agente secreto Stanley que o governo inglês havia colocado à disposição do novo governo para organizar a nascente república.

          -Estou pensando em um Brasil daqui a cem anos, agente Stanley, e só se consegue fazer um país com a educação do povo. Temos muito dinheiro, ouro não nos faltará e se o usarmos com dignidade construiremos uma grande e digna nação. Todas as nossas crianças terão uma educação aprimorada e serão, quando adultos, cidadãos responsáveis por este país. Terão profunda noção de patriotismo e deveres cívicos. Logo formaremos um congresso e os candidatos a ele devem ser corretos honestos e patriotas. Entretanto, – Tiradentes riu e fez um gesto abrangente – como estamos com seres humanos, estaremos de olho neles. Quaisquer indícios de corrupção, traição ou politicagem serão investigados com todo o rigor da lei. Ninguém, neste país, estará acima da lei e todos serão iguais perante ela!

         A bordo do Constellation havia uma Loja Maçônica denominada Mistery, número 147, e naquela noite do dia 21 de abril, Tiradentes, que era maçom, iniciado na Loja Pátria e Civismo da cidade de Salvador, foi recebido com honras de altos graus maçônicos.

        Sir Harlley, o capitão, fez um discurso elogioso a Tiradentes e à Republica do Brasil. Terminou com as palavras:

       -Tenho a honra de comunicar que estamos autorizados a, em nome de Sua Real Majestade Jorge III, Rei da Inglaterra, reconhecer a República do Brasil, como uma nação livre e soberana. Temos ordens de aqui permanecer, para sermos úteis em quaisquer situações desde que haja solicitação neste sentido do governo deste país. Parabéns pelo sucesso, Irmão Tiradentes!

    Após a sessão, Sir Harlley aproximou-se de Tiradentes e apontou para a sua cabeça raspada.

         -Caro amigo, se você quiser, nós temos a bordo várias perucas, loiras ou morenas que ajudarão a cobrir esta marca da condenação.

         -Agradeço pela atenção, Comandante, mas os meus cabelos crescerão com o país que criamos hoje. Ambos serão fortes e quando os meus cabelos estiverem brancos e ralos o Brasil ainda estará no rumo do seu glorioso futuro dentro da Civilização.

          Quando Tiradentes se afastou, Sir Harlley pensou consigo próprio que acabara de ver um homem de verdade e o fato raro do nascimento de uma grande  nação com honra e dignidade!

Ir.’. André Vieira Filho

Membro da Acadêmia Maçônica de Letras de Campinas – Cadeira 30.

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